Zumbido no ouvido pode ser problema na mandíbula?
Pode, sim — e com frequência é. Em uma revisão sistemática de 32 estudos publicada na revista Cranio em 2024, 57,5% das pessoas com Disfunção Temporomandibular (DTM) também relatavam zumbido. Na direção contrária, o dado é ainda mais forte: entre pessoas que procuravam atendimento por zumbido, 92,9% apresentavam algum sinal de DTM.[1] Uma meta-análise anterior, com 22 estudos, já apontava a mesma direção, com razões de chance entre 1,78 e 7,79.[2]
Isso não significa que todo zumbido venha da mandíbula. Significa que, quando o otorrinolaringologista examina o ouvido e não encontra alteração estrutural, a articulação temporomandibular (ATM) e os músculos da mastigação passam a ser a hipótese que mais merece investigação — e é justamente a que costuma não ser investigada.
Por que a mandíbula interfere no ouvido
A ATM fica a milímetros do conduto auditivo externo. Não é só vizinhança anatômica: as duas regiões compartilham inervação. O nervo aurículotemporal, ramo do trigêmeo, inerva ao mesmo tempo a articulação e a região do ouvido externo e médio. Quando a articulação e a musculatura mastigatória estão em sobrecarga, esse nervo é sensibilizado e o sinal chega ao sistema auditivo.
A literatura chama esse quadro de zumbido somatossensorial — zumbido que pode ser modificado por movimentos da mandíbula, da cabeça ou do pescoço. Em um estudo com 310 pacientes com zumbido publicado em Audiology & Neurotology, 79,67% conseguiam modular o próprio zumbido com manobras de mandíbula ou de pescoço, e houve associação significativa entre ter histórico de disfunção na região e conseguir essa modulação.[3]
Movimento a boca e faz barulho no ouvido: isso é sinal de quê?
Estalo ao abrir a boca significa que o disco articular — a estrutura que amortece a articulação — não está acompanhando o movimento do côndilo como deveria. É o sinal mais precoce de DTM articular, e ele aparece antes da dor.
Quando estalo e zumbido aparecem juntos na mesma pessoa, a chance de os dois compartilharem a mesma origem é alta. Vale suspeitar de origem temporomandibular quando:
- a dor no ouvido piora ao mastigar, bocejar ou falar;
- o zumbido muda de intensidade quando você aperta os dentes ou mexe a mandíbula;
- você range ou aperta os dentes — em uma pesquisa internacional com 6.115 pessoas com zumbido, 44,64% relataram bruxismo;[4]
- há estalo, travamento ou limitação ao abrir a boca;
- o zumbido vem acompanhado de dor de cabeça, dor no pescoço ou dor facial;
- a avaliação otorrinolaringológica não encontrou alteração estrutural no ouvido.
Maxilar fazendo barulho: quem procurar primeiro?
Comece pelo otorrinolaringologista. Zumbido tem várias causas possíveis — perda auditiva, exposição a ruído, medicamentos, alterações vasculares — e algumas exigem prioridade. Procure avaliação médica com urgência se o zumbido surgiu de repente, é só de um lado, pulsa no ritmo do coração, ou veio com perda de audição súbita ou tontura importante.
Com o exame otorrinolaringológico normal, aí sim a avaliação com um profissional de DTM e Dor Orofacial é o passo seguinte. É uma consulta diferente da consulta odontológica comum: ela examina articulação, musculatura mastigatória e cervical, padrão de sono, histórico de bruxismo e fatores comportamentais.
Tratar a DTM melhora o zumbido?
Aqui é preciso ser honesto com você. A evidência aponta para sim, mas ainda é limitada. Uma revisão sistemática publicada no Journal of Oral Rehabilitation em 2024 conseguiu reunir apenas 5 ensaios clínicos randomizados com critério diagnóstico padronizado (DC/TMD), somando 329 participantes. A conclusão desses estudos foi que a abordagem multidisciplinar não invasiva é a mais eficaz para zumbido em quem tem DTM, e que a gravidade inicial do zumbido, a idade e o tempo de duração do sintoma ajudam a prever quem responde melhor.[5]
Traduzindo para a prática: quem tem zumbido há pouco tempo e sinais claros de DTM tende a responder melhor do que quem convive com zumbido há muitos anos. E ninguém pode prometer que tratar a mandíbula elimina o zumbido — não existe cura para DTM nem para zumbido. O que existe é controle eficaz, e ele é real quando a origem é temporomandibular.
Como funciona a investigação na prática
A avaliação segue seis eixos, porque DTM não tem causa única — é biopsicossocial:
- Estrutural e oclusal — articulação, disco, musculatura mastigatória;
- Neurológico — sensibilização do trigêmeo e padrão de dor;
- Sono — qualidade do sono e distúrbios respiratórios;
- Inflamatório e metabólico — o que sustenta a dor no tempo;
- Hormonal;
- Psicossocial — estresse e comportamentos mal-adaptativos.
Uma observação importante, porque ainda se ouve muito o contrário: dentes tortos não causam DTM, dor nem bruxismo. Essa relação foi descartada pela literatura, e tratamento ortodôntico não é o caminho para tratar zumbido de origem articular.
Conforme o quadro, os recursos podem incluir Placa Oclusal Estabilizadora, agulhamento seco, laser, ozonioterapia, viscossuplementação da ATM e ajustes no eixo do sono e no eixo inflamatório. A combinação depende do que a avaliação encontra em cada eixo.
Referências
- De La Torre Canales G, et al. Associations between temporomandibular disorders and tinnitus — a systematic review. Cranio. 2024;43(6):969-985. PMID 39290041 · doi:10.1080/08869634.2024.2404270
- Omidvar S, Jafari Z. Association Between Tinnitus and Temporomandibular Disorders: A Systematic Review and Meta-Analysis. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2019;128(7):662-675. PMID 30991812 · doi:10.1177/0003489419842577
- Ralli M, et al. Somatosensory Tinnitus: Correlation between Cranio-Cervico-Mandibular Disorder History and Somatic Modulation. Audiol Neurootol. 2017;21(6):372-382. PMID 28099967 · doi:10.1159/000452472
- Michiels S, et al. The Presence of Physical Symptoms in Patients With Tinnitus: International Web-Based Survey. Interact J Med Res. 2019;8(3):e14519. PMID 31364603 · doi:10.2196/14519
- d’Apuzzo F, et al. Treatment approaches, outcomes and prognostic indicators in patients with tinnitus and temporomandibular disorders evaluated with DC/TMD: A systematic review and Meta-analysis. J Oral Rehabil. 2024;52(2):230-242. PMID 39020483 · doi:10.1111/joor.13796
Dr. Victor Vaz
Cirurgião-dentista com atuação em Disfunção Temporomandibular, Bruxismo, Dor Orofacial e Distúrbios do Sono, com abordagem integrativa. Pós-graduado em Dor. Atende em Balneário Camboriú, SC.
Se você tem zumbido junto com estalo, travamento ou dor na mandíbula e o exame de ouvido veio normal, uma avaliação de DTM e Dor Orofacial esclarece se os dois sintomas têm a mesma origem. Agende sua avaliação.